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(Tradi)sons

não sei a dor que sentes
não sinto a lágrima da imagem partida
nem sei da pele a rasgar pela fé

não sei o peso que carregas
não sinto o peito a despedaçar
nem sei o teu caminho até aqui

não sei dos teus pés sujos
não sinto os cortes das tuas mães
nem sei o que te prende à promessa.

não sei quem te acompanha
não sinto a sombra no embalo da dor
nem sei da tristeza que te fez assim

não sei a geração que representas
não sinto a razão de tentar saber
nem sei por que a vives tentando.

não te sei explicar
não sinto o que precisas
nem sei por que tento.

 

 

não morte

Ninguém morre.
Se a pessoa viveu num todo, jamais morrerá.
Se a pessoa deixou linhagem, jamais morrerá.
Morre sim a aldeia que a protegeu e as casas por onde passou pois deixarão de ser tão ricas.
Ninguém morre.
A pessoa nunca morre.
Morre sim a casa onde viveu e onde o brilho do sol não entrará.
Desvanecem-se daquelas paredes os cheiros da cozinha, a água a cair na terra batida, o cortinado por sacudir, a cama por fazer. Morre tudo à volta mas a pessoa não morre.
A pessoa não morre.
Morre tudo à volta, menos a pessoa.
Morrem todos os vivos por não mais verem o brilho da alma ida.

 
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Posted by on August 31, 2016 in Os d'aqueles

 

Aqui

Nas Flores #AzoresFringeFestival

é no tempo que tenho naquele vivo ali
num aqui sem ter portas nem chão
sobrevoando a imensidão de existir lá
onde o aqui não sabe de mim.

é num lugar onde a inquietação vive lá
lá no redor do que saboreio e sinto
lá que se presentifica em todos os fôlegos que dou
pela insignificância que vejo outros sentirem.

é no espaço onde tudo é nada no conforme da hora
ou nada passa a tudo no instante da dor agora nossa
dor outrora d’outro, de ouro por estar longe, aqui
na insensatez do meu sentir apenas empatia.

é no correr da falta daquele aqui vivido
semeando, espalhando, recordando, imaginando
desejando as alegres lágrimas da correcção sentimental
de um aqui comigo, meu, sentido, fora do lugar comum de um lá.

abraça-me, oh tempo, que aqui não sou eu, lá não fui eu
haja eu aqui num amanhã!

 

https://nina8musicalmas.bandcamp.com/releases

 

 

 

 

 
 

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mulher terra mulher

 

não tenho mulheres no meu mundo. nem no meu mundo existem homens. nem agás pequenos ou grandes, não faço distinção. nem tão pouco sei da cor da pele de quem seja ou sei do sexo de quem o tem ou queira ter.
não tenho mulheres no meu mundo. tenho pessoas ao meu redor. tenho pulsares de coração e batidas de emoção tão dispares como idênticas.
não tenho mulheres no meu mundo. tenho almas que recebem flores quando a não violência deveria ser a oferta. minto! deveria ser a normalidade.
não tenho mulheres no meu mundo. tenho tostões que por fortunas são calculadas quando a balança é medida como direito.
não tenho mulheres no meu mundo. tenho obrigações impostas, vivências esperadas quando o direito seria uma repartida vida.
não tenho mulheres no meu mundo. tenho heróis com ventre, tenho corpos com estrias, tenho o saber em qualquer altura, a mestria em qualquer lugar.
não tenho mulheres no meu mundo por não haver maior mundo do que é ser o que sou, mulher, todos os dias sem comemorações.

 

 
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Posted by on March 9, 2016 in Em cima da Hora

 

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o, um, aquele, este

é o grito que da paixão se cala,

de paixão se revolve na alma.

é um grito que da almas brota e a todos chega.

aquele som que nos invade o pensar.

este grito que nos envolve e nos molda.

é o grito que da força nos faz gritar,

que de alegre dor nos contenta o existir.

é um grito que tudo resolve no nada acontecer.

aquele som penetrante, inconfundível, indizível

este grito que nos vem da alma e nos torna nós.

 

 
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Posted by on February 13, 2016 in Conserto de Alma, Em cima da Hora

 

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eterno

em que terras anda
flutuando o pássaro do sentir
furtando o ar do meu dentro existir
quando o nome é marcado no vento sentido
numa face, lambida pela lágrima do tempo.

em que terras anda
bambaleando as horas do crescer
mareando as poças da terra alagada
quando é o olhar rasgado pela alegria
sentindo o que julgo saber o muito pouco.

em que terras andas
pergunta eterna enquanto eterno formos nós?

 

 
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Posted by on February 2, 2016 in Conserto de Alma

 

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o meu quarto cheira a húmido

O meu quarto cheira a húmido
Tão húmido quanto a chuva se faz passar por sol.
Cheira tanto ao que não deveria
Acumula em excesso o que não sei de onde vem
Que o meu quarto chega a cheirar a bafio
O bafio de uma boca mendicante de frescura;
do recomeço de triturar as difíceis peças escolhidamente abandonadas;
do fechar das horas dum recomeçado trabalho.
O meu quarto é tão húmido e tão bafiento que chego a pensar viver no meu inteiro país.

 

 
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Posted by on January 31, 2016 in Conserto de Alma, Os d'aqueles

 

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