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É como um navio

17 Feb

É como um navio.

Alto mar, tempestades, bonanças

Querendo e desquerendo, partindo

As ondas inquebráveis dos momentos do

Passado.

Como se agulhas furassem

Os poros ja abertos pelos regaços da água

De meus olhos, fugidios da verdade.

E o que guarda? Cá dentro? Onde?

Para quê?

Ter-te em meus braços é um ilusão diária

Que aprisiono sem questionar

Até a dor aguda se lançar

Borda fora deste pedaço de carne

Sem mastro.

Navegar até ao fim do espaço

Que criamos, entre nós.

Navegar para lembrar.

Navegar par descobrir e incobrir

E não olhar a luz do dia,

A luz ofoscante do sentimento,

Do desentir o desentimento…

É deixar os cabos da proa

Dormir, esvoaçando contra o casco

Rude das ondas do mar e do tempo e do espaço.

Tudo o que em nós guardamos

Tem uma natura, um porquê,

Uma voz ou um silêncio

Que pomos borda fora ou

Fechamos, fechamos a todo o custo

Não vá… dizer!

Tudo o que temos cá dentro nos chama

Para fora, para sermos o lado certo

Da forma errada, da sombra brilhante

Da fonte que seca e expele a tua própria pele

Renancendo o odor, o gosto pela esperança

Que um dia regresseremos, vivos e sem guardar-mos

Cá dentro

A formosura de sermos nada e

De tudo podermos ser.

 

Tudo o que guardamos faz monte, moça, dói, alegra, nos constrói. Tudo o que não dizemos faz-nos outras pessoas dentro do nosso próprio mundo como quarto fechado sem ameias para vislumbrar, ter noção do nosso espaço; espaço que nunca, nunca é só nosso. É dor de partilhar. É alegria de ser de mais alguém.

Não me levem a mal, isto para mim faz sentido.

Eu nunca sou só eu. Sou eu e os amigos, e a família, e os colegas, e os patrões, e os vizinhos e sempre sou eu e alguém mais que se cruza comigo, a qualquer tempo. Somos sempre fruto de tudo o que vivemos e com o fazemos. E, sempre, guardamos cá dentro o que não devemos dizer, e repetimos vezes sem conta o que deveríamos dizer, ter dito ou feito ou não e guardamos sempre esse espaço no que nos resta para termos a paz. Mas não sabemos. Não sei ser de outra forma.

Eu escrevo mesmo a dormir e não há caneta nem mão que me valha. O meu pensamento escorre-me feito areia por entre os dedos e a cada palavra uma emoção associo, a cada frase uma cena, um acto de uma peça onde nunca serei senão actriz principal… ai! Responsabilidade! Imagino o palco, o lençol posto à minha frente, as sombras feitas de mim e o que lhes diria e não digo. As palavras que nunca lhes direi, ou nunca lhes farei sentir pois eles e elas são parte de mim e a dor, apesar de sempre minha, não a quero comigo.

Por isso, guardo e encho-me de ar e de dor e de dor transformada em substância. Comida! Não bebo para esquecer. Como para me lembrar que a dor de dizer o que sinto é pior que a dor de me ver como fui.

Ainda bem que o tempo evolui. AInda bem que eu já não sou esse eu.

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Posted by on February 17, 2013 in Perdidos

 

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