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As Luzes Brilham

30 Dec

Este foi o meu conto de Natal, publicado a 25 de dezembro, no Açoriano Oriental.

Muito me orgulhou fazer parte deste jornal de Natal. O meu muito obrigada!

 

Espero que gostem de ler as minhas palavras.

 

 

Eu passo por ela e ela não me fala. Eu vejo-a no decorrer das minhas passeatas mas ela não se mexe. Tudo à sua volta anda e rodopia mas ela mantém-se como sempre pensei que se mantivesse.

Outrora esperei que fosse diferente mas, afinal, não: as luzes brilham como eu as via; os caminhos andam atrás de mim, como sempre os vi andar e todas as sombras que eu vejo são as sombras que sempre soube existirem.

Eu vou caminhando, vagarosamente, dormente, com a dor da lembrança dos meus tempos. A saudade não mata mas consome e o regressar é sempre um bálsamo.

Ela, afinal de contas, está deveras diferente. Ela é já outra: as luzes são mais brillhosas, mesmo sem aquele luar. Os reflexos são muitos mais, mesmo sem aqueles espaços abertos. As ruas são as mesmas, mesmo sem o mesmo som do bater do sapato – outrora em sola de pé. As ruas são as mesmas que abraçavam o calor do coração quando o cheiro da terra se elevava no ar nosso. Ela já não é a mesma mas continua minha. Sempre minha. Fui eu quem dela se apartou; dela se fez refugiado no mundo, lá fora. Fui eu quem dela saí mas ela não – nunca – de mim, se evadiu.

E agora, com tanta luz e tanto cantar, regresso ao meu berço. À minha pedra de calçada. À minha humidade terrível. Ao meu cheiro a mar, que de mar pouco tem este nosso oceano. E agora, com tanta fartura à mistura, com tantos abraços e apertos de mão, vejo o velhinho de barbas branquinhas a cantarolar o seu mantra como há anos o oiço, com voz mais rouca ou mais fina, com mais ou menos sotaque. Mas esse “Oh! Oh! Oh!” não é dele. É meu! É de mim que sai a vontade de exclamar “Oh terra minha! Fortuna roubada aos deuses do além e do aquém! Oh minha pátria, alojada nas vagas do meu ser, abraça-me no vermelho dos tempos, no verde das lembranças, no doirado da esperança! Abraça-me feito a mãe que deixei, quando de ti parti! Abraça-me tal como se eu ainda fosse aquela criança! Conforta-me neste tempo de famíla, família que perdi e que carrego comigo, amiúde. Abraça-me, Natal!”

Mas a voz queda-se surda dentro do meu peito. Falam por mim, meus olhos brilhosos feito o farol que acabo de rever. Falam por mim as minhas trementes pernas quando passo à frente das portas das minhas recordações. Falam por mim as minhas mãos nervosas a tocar cada aresta deste tanque, destas portas. Falam por mim o bater do coração que quase se entorpe ao ver o meu mundo. Mas este meu mundo já não é só meu. É meu e das crianças que vibram no correr dos trenós imaginários. É meu e dos adultos que almejam a cidade delas como redoma da corôa do velho continente. É meu e dos meus mais velhos como se deles o chapéu jamais se tivesse perdido no fazer do caminho, no fazer do tempo. É meu e dos meus.

E, neste nosso tempo, o calor é abrassador mesmo com as chuvas vindas do norte. E, mesmo com as correntezas das ondas (que a nós peixe trouxera e que levam as vidas dos que de nós sairam), este nosso tempo é de paz. É de amor. É de quentes e nobres sentimentos. Mas é pouco. Agora é pouco. Já se tornou pouco. O tempo que agora é nosso, deveria correr nas nossas veias mesmo quando o tempo não fosse a data do calendário. Deveria ser o nosso tempo, sempre que nós o festejassemos com o mesmo fulgor. Mas os tempos não estão para demais. Antes, para de menos. Mas há sempre mais. Há que haver mais. Nem que seja neste tempo: que haja mais!

Mas peço o quê? O que me dizem todas as vozes? “Isto está mal. Está muito mal!” Mas ainda não está tão mal quanto esse. Está mal porque eu esqueci-me de olhar pelo meu vizinho. Porque o meu vizinho esqueceu-se que também eu faço parte do todo que ele dirige. Está mal porque esqueci-me de o acarinhar e de o ajudar, mesmo quando as ajudas não eram precisas. Está mal porque ele desisitiu dos outros e pensou em si. Mas será que pensou? Eu não soube. Nunca soube. Supora, nada mais!

E agora, neste tempo, todos me batem à porta. Ainda que esta não seja a minha casa; ainda que não seja daqui a minha fortuna, aqui me batem à porta. Aqui, para mim correm. Aqui laço os dias com o meu querer e com o meu poder. E, neste tempo, mesmo que de um outro tempo se tratasse, lançaria à minha volta o corda para a solução do meu tempo. Colocaria à volta dos meus, a corôa de Natal, enfeitada com todas as sanefas e com todas as esperguilhas que ainda pudesse açabarcar. De tudo enfeitaria as minhas pessoas, na esperança, nos votos, nos desejos de os ver brilhosos, luminosos, festivos e contentes quanto eu me sinto, ao passear meus velhos pés por esta velha, pacata, cidade de onde aprendi o valor de pertencer a um tempo.

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Posted by on December 30, 2013 in Textos por Isso e por Aquilo

 

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