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Mãe Delgada

01 Apr

braços de um mãe

 

és como um mãe

recebes os teus filhos sem dizeres nada

sem comentares nada

sem procurares nada deles.

 

recebe-os e trata-os bem!

 

devolves os teus filhos ao mundo

como se de um pequeno bebé

de um pequeno gesto

eles mais tarde fossem criados

homens adultos, vultos do mundo

fossem eles todos razão de tu existires.

 

como uma mãe tu celebras as venturas e desventuras

as alegrias e as tristezas

os cânticos negros, os xailes negros, coloridos

percorridos por entre as estradas do teu corpo

 

como mãe estás lá sempre.

como mãe és pedaço daquilo que mais ninguém tem

que mais ninguém sente e mais ninguém sabe explicar

 

o teu tamanho, a tua altura, a tua largura, não importa

a tua voz silenciosa ruidosa, normal, típica, nova, fresca, velha

nostálgica

não importa!

 

importa é que a tenhas

importas é que nós, teus filhos,

nós que a ti escolhemos abraçar-te como mãe

nós que a ti não tivemos outra sorte

ai que sorte tão boa!

de ter-te como mãe

não nos importa.

 

os braços de uma mãe,

como a tua mãe

como a minha mãe

como as mães de todas as mães

como planta que sobrevive

tem sobrevivido

tem-se misturado com os tempos

em todas as plantas do mundo

em todos os cantos, com todos os cânticos

com todas as cores, com todos os saberes do mundo

não importa!

 

não importa o quão pequena o quão vasta tu sejas,

mãe!

mãe cidade, mãe rua, mãe valeta

mãe casa, mãe café, mãe casebre

em ti encerras todas as certezas do mundo

em ti se encerram todas as clarezas, as claridades,

vozes do mar, sons do vento que além mar mostram a ilha encantada

ou que num dia de maior ou menor nevoeiro

numa manhã de maior ou menor abertura do tempo

nos mostra mais um pedaço que outro alguém chamará de sua mãe

 

mas a ti?

a ti como és

estreita até, delgada também,

delgada com certeza!

como tu, como a ti chegam e com tu os tratas, como tu os recebes

como a ti deixam,

não há mais nenhuma,

minha mãe.

 

serás,

dos tempos idos da alegria que não sabia que vivia

dos tempos idos do conhecimento que não tinha a certeza que o estava a receber

aprendi que eras doce no cântico daqueles que a ti já te conheciam

e eles, até hoje, ressoam nos palcos que tu lhes dás,

que tu lhes ofereces

gritam, gesticulam, atiram ao alto bandeiras

para te louvar,

para dizer que já sem ti, não sabem viver.

mãe!

 

mãe:

cidade mulher, cidade homem, cidade criança

cidade que enquanto souber ser a mãe que tem sido

será para todo o sempre

este pedacinho de chão

que nos acolhe

mesmo na tristeza

mesmo na alegria.

este pedacinho de asfalto

este pedacinho de terra batida, de pedra lavrada,

de pedra branca, negra, cortada, martelada

onde se desenham todos os sangues do teu povo

onde se desenham todas as histórias que viste fazer nascer,

que viste fazer crescer

que viste fazer viver e até morrer

 

tu, oh mãe!

tu, minha cidade!

 

serás sempre aquele cheiro de bebé que ninguém sabe descrever

serás sempre aquele toque, aquele sentimento de saudade

que ninguém sabe explicar

serás sempre um pedaço daquilo que eu sou

serei eu sempre pedaço daquilo que tu me ensinaste

seremos sempre uma mãe e uma filha

em todos os tempos

em todos os lugares

em todas as idades

e em todas as fortunas e em todas os infortúnios

seremos sempre uma da outra.

 

sempre, minha mãe,

ponta delgada.

 

 

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