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montanha abaixo

27 Dec

 

trovões
trovões à solta
na debandada da hora da madrugada
por aquela dor caminha
ziguezagueando o trilho
sem pés fortes nem mãos que o equilibrem
sobe sobe e sobe até ao fim
cai
deixa-se rebolar pelo solo
de um lado para o outro
a um sopro redobra-se e levanta-se
saltita devagarinho
saltita em ponta de pés
assenta o que lhe vai na alma
dá pulinhos
pulinhos sem força de marcar o chão
escorre-se pela ladeira abaixo
envolto em todo o lado que lhe toca
esbarra no tempo
pára
solta-se-lhe o cabelo,
retira-se-lhe o cajado da idade
e anda
bailando, sobranceiro
sem mácula ou espeto espetado no corpo
com as marca das cicatrizes
e revolta-se sobre si e rodopia-se
e volta a girar
e volta a cair
e volta a erguer-se
e volta sempre
salta
salta para o alto
para o mais alto chegar
e grita
as vozes que houvera um dia ter dito
e berra aos ventos
que ninguém o ouve
as mágoas que só ele sente
e o mundo escuta
sem dor, nem paciência, nem pena
sem nada do que ele esperava
e sem voz, calcula
gesticula, anda e desbrava
vai e corta,
corre e salta
rompe as roupagens de ninguém
e seca as lágrimas de todos
e vai correndo e vai saltando
vai dizendo que sim e teimando que não
ao sim e ao não por dizerem de si o que não quer
e cai
e volta a cair
escorrega
esconde o seu rosto dos rasgos do vento
com o seu génio de mal feitor inventado à pressa
acalma a descida com as cortadas mãos
daquela labuta sem data nem hora
e senta-se no desfiar da montanha
à espera que o sol brilhe
inspirando o que lhe toca na face
o que quer que seja que o seu raciocínio lhe mande fazer
e descobre
descobre-se do tempo
põe-se a nu
arrasta-se para o horizonte
sempre mais à frente
e vai caindo no seu chegar lá
vai vendo as sombras do que não chega a fazer
e vai caindo no seu chegar lá
sabendo da mágoa do que deixou por dizer
e vai caindo no seu chegar lá
nos beijos do esperado elogio mudo.
sorriu.
abriu os seus lábios para beijar o tempo que tinha
cerrou os dentes para a ferida não manchar o sabor do amor
daquilo que lhe ainda resta ser
sorriu.
abriu os olhos para enxergar o brilho que sonhava ver
protegendo os medos com o braços cortados pela vida
daquilo que ele soubera ser.
sorriu.
e apena sorrindo ficou
à espera de voltar a cair
e a cair e a cair e a cair
e a levantar-se.

 

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Posted by on December 27, 2014 in Em cima da Hora, Metade de Mim

 

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