RSS

sou filha de um pai

19 Mar

 

barafustei-me, zanguei-me.
irritei-me. chorei-me.

em tudo as mais de tudo,
as maiores dores de todas.
as minhas eram sempre mais.
as mais certas do viver
naquilo que eu pensava vida ser.

em todos os ouvidos,
de queixume enchi os instantes
que a dor de não ter o que queria
não estar onde estavam os demais
não ser quem eu ainda nem sonhava existir.

em todos os instantes,
onde o livro, a roupa, o saber, o carro entrou
foi ele o berço das minhas saudosas dores.
e todo o resto, foi no dele nascido.

no imenso mar dos dias de não me saber quem era
nunca soube a quem dizer um amo-te paternal:
toldava-me a raiva, a dor, a ansiedade, o receio do que sentia maior que eu
toldava-me a raiva, a dor, a ansiedade, o receio da estúpida normalidade do meu tempo.

em todos os berços nascidos
das estórias infindáveis do meu nascer
havia aquele carinho escondido,
um amor imenso disfarçado,
tudo pelo não amor mostrado.

em todos os instantes do que desde então
num ontem até hoje aprendido
sei o quanto o choro foi perdido, a raiva foi gasta,
a ansiedade foi desmedida e a zanga mal direcionada.

mas ele sobreviveu. sobrevive.
mas eu também. e eu também.
não é um dia, num dia só.
são os dias, são todos os dias
deles, dele. o dele.

uma parte de mim é dele
sou pedaço do barco que ele leva o leme
um quinto da sua semente,
uma infinita parte da sua história.

sou filha de um pai invejável.

 

Advertisements
 
Leave a comment

Posted by on March 19, 2015 in Conserto de Alma, Os d'aqueles

 

Tags: , , ,

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: